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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Meninos não choram...


Eu poderia dizer que estou arrependido e que ainda te amo, mas isso não fará você mudar de ideia. Dessa vez eu falei demais, fui muito indelicado. Eu tento rir de tudo por aí, cobrindo com algumas mentiras, mas sempre as lágrimas caem. Não, não, meninos não choram. Meninos não choram.

Eu me desmancharia aos seus pés, mendigaria seu perdão, imploraria a você. Mas eu sei que é tarde demais, e agora não há nada que eu possa fazer. Por isso eu tento rir disso tudo, cobrindo com mentiras. Mas sempre escondendo as lágrimas em meus olhos, pois garotos não choram. Não choram.

Eu diria a você que te amava, se achasse que você ficaria mas eu sei que é inútil. E você foi embora, lembra? Julguei mal o seu limite. Fiz você ir longe demais. Te subestimei, não te dei valor. E ainda pensei que você precisasse mais de mim.

Agora eu faria qualquer coisa para ter você de volta ao meu lado. Mas eu só fico rindo e escondendo as lágrimas em meus olhos, pois meninos não choram. Meninos não choram.

Do escuro começou o teatro.



Na madrugada escura à sombra de mesas, cadeiras e quadros pretos na parede derramados sobre o negrume intocado em que talvez tenha começado o teatro."

Fala comigo doce como a chuva


''Chegou em casa decidida a pouco fazer. Pensou em ler livros, folhear revistas, ouvir boa música, desistiu. Quis apenas tomar o chá quentinho que fizera e comer bolachas de água e sal. Da beira da janela, observava a chuva que caía fortemente sobre os vidros.

Começou a rever ações, a julgar razões, a dar soluções, a brincar de Deus. Em pensamentos, quis ser constante, andou errante, era uma infante. Acabou com tudo, parou com o mundo, seguiu seu rumo; buscou a sorte, conquistou o Norte, encontrou a fé, continuou de pé, tornou-se mulher... Já não havia tempo... tudo era passado, tudo tinha mudado, o amor estava morrendo, a chuva caindo.

Desiludida, quisera ter paz, sossegar nunca mais, encontrar um amor, consolar-se na dor, inquietar as prisões, sentir emoções. Tudo era errado, não mais que pecado, todos mudaram, os homens mentiram; os caminhos em desconexos límpidos, os opostos gladiavam, a raiva era luxo, a saudade uma gafe, o tormento inconstante, a salvação distante, o Herói impotente. Reflexiva, estática ficara. Não havia mais desejos, ilusões, sonhos com os quais sonhar. A fé tinha chegado ao fim e a solução tornava-se, cada vez mais, irremediável. Lágrimas caíam...

As pressões a sufocam quanto mais seus sonhos eram verossímeis. Suas ações eram indignas as vontades e anseios de Deus. Tudo estava por um fio. Já não mais sentia sensações, não pensava mais em emoções; tudo era vaidade, a verdade uma saudade, as máscaras perduravam, a chuva passava, seu coração acelerava.

Nesse instante, seu músculo involuntário seguiu os caminhos da chuva que havia parado. Diante de Deus, pediu pela paz, ansiou por morais, conquistou a fé, descobriu o rancor, chorou pelos céus... Tentou animar-se, fazer sua parte, sentiu um desejo, lutou por um beijo, ganhou um clamor que a solidificou. A verdade era pura ao mesmo que imatura. A mentira, um universo de sensações várias de alucinação com crises de mau amor. E só então, ela descobrira que seu destino estava arranjado, só não havia avisado. As vibrações que sentira eram as gotas doces das chuvas transformadas em lágrimas diante da paisagem que os vidros cobriam em sua casa.

Justamente ali, o amor sorriu e não mais a inquietou, pois recuperara sua crendisse Nele e isso afagava seu peito, que resplandeceu de flores de jasmin e exalavam o perfume da serenidade que somente a felicidade é capaz de cumprir. Valeu a pena docemente chover.''

Este texto baseia-se em reflexões do clássico de mesmo nome, do autor americano Tennessee Williams. Em sua obra, o dramaturgo faz a síntese de grande parte do desespero existencial com que trata seus personagens. A crueldade maior da história, é que ela fala da desilusão do amor, da solidão e da incapacidade do ser humano em ser feliz justamente na base da sociedade: a juventude.

Livro: Fala comigo doce como a chuva
Autor: Tennesse Williams